Jornalista Régis Oliveira: A Cacique Pequena- Líder dos Genipapo- Kanindé em Aquiraz- Entrevista

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A Cacique Pequena- Líder dos Genipapo- Kanindé em Aquiraz- Entrevista


Nessa entrevista, Cacique Pequena, mostra sua consciência, ela diz, "Mulher pode ser igual ao homem, só não pode é passar".


Aldeia dos Jenipapo-Kanindé fica nas entranhas do município de Aquiraz, entre caminhos estreitos de uma estrada carroçável. Foi ali, em terras próximas à Lagoa da Encantada, que uma mulher tomou para si o desafio de chefiar uma tribo indígena no Ceará pela primeira vez. Para ela, foi também pioneira no Brasil. Aos 70 anos, Cacique Pequena organiza sonhos para a comunidade de índios que a escolheu como liderança. Os mesmos por quem lutou por escola, posto de saúde e reconhecimento. Conseguiu tudo. Conseguiu, inclusive, romper com a discriminação que lhe apareceu, pela primeira vez, em viagem à Brasília e teimou a se mostrar em outras ocasiões. Pequena recebeu O POVO na terra de chão batido da mãe-natureza e falou sobre os desafios de ser uma “lídera”. Assim mesmo, no feminino. 

 No dia 6 de março de 1995, a senhora assumiu a tribo como cacique. Foi a primeira mulher a ocupar esse posto aqui no Ceará. A senhora teve medo quando soube que ia ser cacique?
PEQUENA - Não, eu não tive medo. Mas, não queria receber a cacicagem. O cacique que tinha convivido com nós muito tempo morreu tava com dois anos. O Pai-Tupã tinha levado. Ele não ensinou como a gente fazia para ser cacique. Não passou nada para nós; nem para mim nem para os outros. O cacique tinha uma doença mortal, ele foi embora de uma hora para outra. A aldeia passou três anos solta, mas o pessoal sempre reclamou que devia ter uma pessoa para viver como líder aqui. Aí, em uma bela tarde, numa reunião com advogado e tudo da Pastoral Indigenista (da Arquidiocese de Fortaleza), todo mundo ficou conversando e cochichando uns com os outros. Eu queria saber que cochichado era aquele, mas fiquei na minha. Quando dei fé um perguntou: “Quem vai ser o cacique?” Todo mundo ficou olhando para mim, aí disseram: “A Pequena”. Eu já tinha 11 anos de trabalho para a aldeia, mas disse que não queria. Eu disse três vezes que não queria. Eles insistiram, insistiram e persistiram até que eu caí, bem molezinha, e disse que aceitava. Mas eu disse: “Não sei o que vou fazer, porque o cacique morreu e não disse o que se fazia na cacicagem. Se eu fizer coisa boa, bem. Se não fizer, não é problema meu, porque vocês insistiram”.

 A senhora se arrependeu de ter aceitado esse pedido do seu povo?
PEQUENA - Não, nunca me arrependi. Até hoje eu não me arrependi do encargo que eu peguei. Eu passei por muitos altos e baixos. Fui muito discriminada por ser uma mulher. E por ser uma mulher, ainda por cima, que não tinha letra. Só não dizia que era analfabeta porque eu sabia assinar meu nome. Mas eu não tinha letra pra pegar um livro, um documento e ler. Eu não me arrependo porque, depois que eu assumi a cacicagem, eu quero ver até o fim, até eu tombar e o Pai-Tupã me levar. Nada faz eu me arrepender. Eu sofro, passo dificuldade, sou discriminada, mas eu não me arrependo de ter aceitado ser cacique.

 Você disse que já sofreu discriminação por ser uma mulher cacique. Qual foi a primeira vez que a senhora percebeu que estavam agindo com preconceito com a senhora?
PEQUENA - Foi na primeira vez que viajei para Brasília. No dia 6 de março, eu recebi a missão de ser cacique. No dia 12, eu botei o pé no mundo com a cara e a coragem. E sem dinheiro. Era um encontro para aprovar o Estatuto do Índio, que até hoje ainda não foi aprovado. Eu saí, fui numa caravana de índio. Antes, paramos em Minas Gerais. Lá, eu fui discriminada pelos homens do Sul e do Norte. Eles disseram que mulher só servia para cama e pé de fogão. Quando eles terminaram de dizer, eu pedi a fala e disse que não era como eles pensavam. Mulher tinha vindo ao mundo para se igualar a eles. Só não pode é passar, mas igualar ombro a ombro a mulher pode. A mulher tem talento. É mais forte do que o homem. A mulher é uma pessoa viva, porque dá fruto. Eu disse que eles não podiam dizer aquilo comigo porque todos eles tinham saído de uma mulher. Eu fiz um sermão com eles. E depois eles ficaram conversando um com o outro. Acho que pensaram assim: “Vamos ver se ela é boa mesmo”. Eles fizeram um teste comigo, mas não serviu de nada. Eles me deram um copo de suco e eu não senti nada. Depois bateram cada um no ombro do outro e disseram: “Acabou com a da roça, amanhã a gente arrasta ela pra Brasília junto com nós”.
 O que tinha nesse suco?
PEQUENA - Não sei. Era um suco verde. Até hoje eu estou por saber o que era esse suco verde que eu tomei deles.

 A senhora falou para eles que a mulher pode se igualar aos homens. A senhora sempre teve essa consciência ou foi o tempo como líder da aldeia que lhe mostrou isso?
PEQUENA - Toda vida eu tive essa consciência. A mulher ela não deve viver só viver para cama e pé de fogão. Até porque, quando eu era mulher nova, antes de ser “lídera”, minha mãe nunca me deixou sem trabalhar. Eu era caçula. Ela podia ter me criado em berço de ouro, mas ela me botava no trabalho. Com sete anos de idade, eu tava no rio pescando mais ela, fazendo tudo o que eu pudesse fazer. Eu arrancava caranguejo nos mangues também. Eu fui vendo que a mulher não podia viver só esperando pelo homem. Eu trabalhava de enxada, eu fazia lastro de feijão e de milho, de tudo que se tinha na roça. Fui vendo que aquilo ali — já que eu não podia viver com a caneta e o papel na mão — era meu estudo. Eu vivia trabalhando para mim. Eu tirava espinho, murici, castanha. E assim eu vivi a minha vida. Eu não precisava andar pedindo nada a ninguém. A minha força sempre deu para eu trabalhar.
 Até os 16 anos, a senhora morou longe da tribo. Nesse tempo, a senhora se viu como uma não índia?
PEQUENA - Não. Os índios sempre estiveram junto com nós. Não passava um mês longe dos meus parentes. Eles vinham pegar caranguejo, tirar siri, búzio, ostra lá onde a gente morava… Sempre eles estavam lá. A gente não perdeu contato. Eu não me criei junto deles, mas não perdi o contato. É tão provado que me casei aos 16 anos (com um índio da aldeia) e até hoje moro aqui.

 Até os anos 1980, a tribo Jenipapo-Kanindé não tinha contato com não índios. Como foi essa aproximação com os brancos?
PEQUENA - A gente morava num paraíso que passou a ser um abismo. Passado um tempo, esse mesmo abismo veio voltando como paraíso de novo. Vieram uns alunos da Uece (Universidade Estadual do Ceará) e fizeram uns estudos com a gente por quatro anos… Nos pegavam da forma que a gente vivia. Nesse tempo, não importava se tava vestido, se não tava. Não tinha isso de estar bem vestido. As crianças de 10 anos pra baixo eram tudo nuazinha. As meninas, quando cresciam os peitos, ainda andavam nuas. Mas aquilo era uma inocência tão grande que ninguém nem percebia. Para nós, era normal.
 Mas por que virou um abismo?
PEQUENA - Porque os índios perderam essa inocência de viverem nuzinhos. Na hora que esse pessoal começou a chegar aqui, eles se sentiram agredidos, porque nós somos a própria natureza. Nós não vivemos mais nessa situação, porque estamos sendo vigiados 24 horas pelo homem não índio. Eles ficavam verificando o jeito que a gente vivia. Se não fosse isso, a gente vivia da mesma forma. O abismo foi esse. Os índios começaram a se vestir, começaram a cortar o cabelo. Antes, todo mundo tinha o cabelo grande, tanto a mulher como o homem. O cabelo do homem era cortado com casco de coité. Do jeito que você vê os índios da Amazônia, eram os índios do Jenipapo. Nesse tempo, a gente era conhecido como os “cabeludos da Encantada”.

 E a vida aqui, como era nesse tempo?
PEQUENA - As casas eram todas de palha. A gente amanhecia o dia com a panela de peixe no fogo, cozinhando. Os beijus já estavam feitos para comer com peixe. A gente esmagalhava o beiju num prato de barro e comia. Não tinha fogão a gás, era no chão. A gente sentava em esteira de junco e tomava café em uma cumbuca de coco. Quando acabar, os homens iam trabalhar. As mulheres iam varrer a casa, ia trabalhar de almofada (renda), iam pra lagoa lavar roupa, colher castanha… A nossa vida era essa. Quando esse pessoal chegou (os não índios), eles viram tudo isso. Eles vinham tão de mansinho que tiravam fotos da gente e ninguém nem percebia.
A senhora tem saudade desse tempo?
PEQUENA - E muita. Era uma vida boa, tranquila. A gente não vivia nessa correria de ir pra um canto e outro. A gente se deitava no terreiro, fazia uma fogueira fora da casa, passava horas e horas vendo a lua clareando. Era um paraíso. Se juntavam três ou quatro pessoas numa roda de conversa e os meninos brincando ao redor da fogueira. Era bom demais. Nem parece hoje. Hoje, é todo mundo na televisão. Todo mundo no som. Sábado e domingo é um papoco de som tão grande aqui…

 Agora vamos falar da senhora como cacique. Já são 21 anos como líder da aldeia, a senhora se orgulha de algum trabalho que realizou pela tribo?
PEQUENA - Eu não tenho orgulho. Eu tenho a sensação de felicidade. Acho orgulho uma palavra muito pesada. Me sinto feliz porque eu peguei esse povo ainda sem entender as coisas. Eles não tinham sabedoria de nada. Quando eu comecei a trabalhar em defesa deles, eles mudaram. Eu me sinto feliz por esse lado. Eles são pessoas que já estão entendendo um pouco da convivência indígena e sabem que ser índio não é só ser índio. É preciso ir mais além. Os índios precisam saber dos seus direitos. Hoje eu já sei que eles podem ir atrás do que é deles. Quando eu comecei, eram só 17 famílias. Hoje, são 120. Deu um pulo muito grande. Eu já sinto que, mesmo tendo entrado o progresso aqui nesse lugar, com toda a discriminação que a gente passou na vida, hoje a gente está mais preparado. Temos escola (cujos indígenas são professores), energia, água, galpão de artesanato, museu, posto de saúde e Cras (Centro de Referência da Assistência Social) para o índio. São coisas que vieram como fruto dessa mulher aqui.
 Existe ainda algum outro benefício que a senhora tem vontade de trazer aqui para aldeia?
PEQUENA - Eu tenho muita vontade de trazer um projeto para as mulheres daqui, para dar fonte de renda. Para as mulheres trabalharem de costura ou de artesanato. Para elas aprenderem além do que elas já sabem, para ver o produto ser vendido lá fora. Quem sabe até ser exportado… Elas precisam de um trabalho para ter a vida livre, para não viver encabrestadas na cabeça do branco. Hoje, a gente tem escola, mas as índias e os índios vivem encabrestados. Eles trabalham pro Governo. Sei que tem carteira assinada, mas a pessoa vive encabrestada 24 horas…

 E sobre a demarcação da terra dos Jenipapo-Kanindé? Hoje essas terras estão demarcadas, mas como foi essa luta?
PEQUENA - Quando fui em 1995 a Brasília, saí com essa vontade na cabeça. Eu ia cobrar da senhora Funai (Fundação Nacional do Índio) o nosso estudo (das terras). Quando cheguei lá, eu falei para mais de 5 mil pessoas. Não é mole uma analfabeta sair de casa, nunca ter pegado num microfone e dizer assim: “Senhora Funai, não vim visitar Brasília. Eu vim por necessidade do meu povo”. Dei meu recado bem dado e depois eles me garantiram que iam mandar alguém. No dia 25 de novembro de 1997, a Funai caiu aqui dentro. Eles fizeram esse estudo. Onde tinha tapera de índio, virou nossa terra. Foram 1.734 hectares de chão. A gente teve o índio e a terra estudados. Depois de dois anos (do estudo), eles voltaram e trouxeram a notícia que nós estávamos sendo um povo reconhecido. Nossa terra foi delimitada. Isso em 1999, no poder do (ex-presidente) Fernando Henrique Cardoso. Quando foi em 2004, no poder do (ex-presidente) Lula, ela foi reconhecida oficialmente. Em 2011, a gente teve a notícia que a terra foi demarcada.
 Foi uma felicidade grande?
PEQUENA - Muito grande. A gente fez até um toré (dança indígena) animado. Foi uma festa bonita. Agora, só falta homologar, desentrusar, registrar, carimbar e assinar a terra. Ainda falta um bocado. Ela só está demarcada. Ainda falta é coisa e a luta não pode parar.

Depois que a senhora se tornou a líder aqui da aldeia, a relação entre os homens e as mulheres mudou?
PEQUENA - Mais ou menos. Toda vida eles gostaram de respeitar as mulheres. Nunca foram muito rigorosos não. Não vou dizer que não existe. Claro que existe. Mas a maioria é da paz com suas esposas. Todo mundo já entendia que a mulher não é aquele bicho brabo do mato. Eu achei os homens do Sul e do Norte mais rigorosos com as mulheres.
 Tem algum sonho da senhora que não se confunde com um benefício para a tribo? A senhora tem sonhos pessoais?
PEQUENA - Bom, meu sonho pessoal é terminar meus estudos. Esse é meu grande sonho. E eu confio no Pai-Tupã que eu vou realizar meus estudos e terminar meu segundo grau. Eu já estou no primeiro ano (do Ensino Médio). Devagarzinho, eu chego lá.

 Por que o estudo é tão importante para a senhora?
PEQUENA - Na minha vida, eu nunca tive oportunidade de estudar. A coisa que eu mais tinha vontade no mundo era aprender a ler e escrever para, quando eu pegar um documento, eu saber o que foi acertado nele. Se ele era bom ou se era do mal. Eu tenho curiosidade de saber as leis. Meu sonho é ler as leis e saber o que elas marcam pros índios… Eu queria pegar um documento desse e ler todinho para todo mundo ver. Essa vai ser a maior felicidade minha. Por isso, eu estou estudando.
 Quando o cacique anterior morreu, não havia ninguém preparado para assumir esse posto. A senhora está preparando alguém para assumir seu lugar?
PEQUENA - Eu já preparei. É minha filha mais nova. Se chama Juliana. Eu peguei ela e outra filha e pedi para assumirem meu encargo. Desde 2010 elas já estão no caminho. Quando eu for embora, elas podem realizar tudo o que eu deixei aqui na terra. A Juliana foi até batizada. Já é considerada cacique, mas ela disse que não quer assumir enquanto eu estiver viva.

 Para finalizar, quero que a senhora explique o que é ser índia?
PEQUENA - Ser índio é coisa maravilhosa. O índio ele vem da própria natureza. Ele não é inventado. Ele é nascido e criado. O índio é a pessoa que respeita a tradição, a convivência, a sua vida naquele lugar junto uns aos outros. O índio ele respeita a natureza. Não vive devastando a natureza. Se ele puder cada vez mais preservar, é melhor. Esse é o índio de verdade. Ele nasce e se cria na natureza, pegando o gosto e o cheiro da natureza todo dia, pisando na mãe-terra sem ter nojo. O índio é tudo na minha vida e tudo que existe na natureza é o índio. E nós não podemos negar isso, porque senão estamos negando a nós próprios.

Perfil
Maria de Lourdes da Conceição Alves é o nome de batismo, mas todo mundo a tem como Pequena. O apelido ganhou da mãe, ainda na infância. Nasceu em 25 de março de 1945, na região do Riacho Saco do Marisco, no município de Aquiraz, localizado a 32,3 km de Fortaleza. Pequena é filha da tribo Jenipapo-Kanindé, onde criou os 16 filhos. É a primeira mulher cacique do Ceará de que se tem registro. Ela diz ser também pioneira no Brasil. 

“Índios perderam a inocência de viverem nuzinhos. Não vivemos mais assim, pois somos vigiados 24 horas pelo homem não índio”



“Meu sonho é terminar os estudos. A coisa que mais tinha vontade era aprender a ler e escrever para pegar um documento e saber o que foi acertado nele”

Fonte: O Povo

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