terça-feira, 26 de julho de 2011

Namoro ou amizade?


O que a ciência diz sobre a amizade

É namoro ou amizade?A amizade entre homens e mulheres é rara, difícil e frágil. Ainda assim, tem quem tente. Entenda por que essa relação vai se tornar cada vez mais comum e até necessária

por Veridiana Sedeh

Sérgio e Natália formam um belo casal: são jovens, atraentes, adoram estar juntos. Íntimos, conversam sobre tudo, fazem baladas e viagens e, em 10 anos de relação, nunca se beijaram. Sérgio e Natália são um casal de amigos. Natural para os dois, a relação é vista com ceticismo por quem está em volta - homens, principalmente, custam a acreditar que nunca rolou algo a mais. Sempre que conhecem alguém, a pergunta se repete: "Vocês são só amigos mesmo?" 

A frequência da dúvida mostra que nossa sociedade hiperconectada e globalizada ainda é bem conservadora com esse assunto. Em nossa defesa, temos milhares de anos em que simpatia entre sexos era sinônimo de atração sexual e algumas décadas em que pode não ser. É um fenômeno novo, mais recente que a TV em cores. Para ter uma ideia, os primeiros estudos sobre esse tipo de relacionamento são do final do século 20, e ainda não ajudam muito a esclarecer todo o emaranhado de dúvidas - naturais - sobre o assunto. E, se o tema é recém-chegado à ciência, ainda é ignorado pela ficção. Em filmes, seriados e novelas, o casal hetero está sempre destinado à cama ou ao altar. 

Mas a amizade entre homens e mulheres existe - e acredite, você ainda vai ter uma. 

Um mal degenerador. Até o século 19, assim era encarada a amizade entre homens e mulheres. Segundo Rosana Schwartz, pesquisadora de gênero da PUC-SP, a ciência (influenciada pela moral) da época garantia que as moças, criaturas frágeis, próximas de rapazes tenderiam a histeria ou "desvios de comportamento" - apaixonar-se por um estando prometida para outro, ou, Deus o livre, praticar sexo fora do casamento. O lugar delas era em casa. Para sair, deveriam estar acompanhadas por pais, irmãos ou marido. As que estudavam frequentavam escolas femininas, e as que trabalhavam o faziam separadas dos homens - lavavam, costuravam, cozinhavam. Nesse cenário, além de indesejada, a amizade era quase impossível. 

As coisas começaram a mudar nas décadas seguintes, quando homens e mulheres se tornaram colegas de trabalho. "Amizades com pessoas do sexo oposto é um novo fenômeno para adultos. À medida que mulheres e homens alcançam maior paridade de salários, eles estão mais aptos para ser amigos", afirma Geoffrey Greif, professor da Universidade de Maryland e autor do livro Buddy System: Understanding Male Friendships ("Sistema dos Caras: Entendendo a Amizade Masculina", ainda sem edição brasileira). O equilíbrio gerado pela independência feminina vai além do campo profissional - quando os salários emparelham, o respeito chega ao dia a dia. 

"Passamos por um século inteiro de transformações para chegar ao ponto em que homem e mulherpodem ser amigos", destaca Schwartz. E é aí que as coisas começam a se complicar. 


Sexo entre amigos

As barreiras sociais ficaram no passado e homens e mulheres conseguiram se tornar amigos. Só faltou avisar os hormônios. 

A tensão sexual está presente em mais da metade das amizades com o outro sexo, revela um estudo com mais de 150 homens e mulheres conduzido por Linda Sapadin, psicóloga e consultora de relacionamentos. Aliás, 6% das mulheres e 7% dos homens admitiram que essa tensão era do que eles mais gostavam nessa relação. Mais homens admitiram ter levado amigas para a cama: o sexo amigoaconteceu para 66% deles e 46% delas. Porém, tanto homens (74%) quanto mulheres (82%) admitiram que o sexo prejudicou a relação. Na pesquisa, alguns homens relataram que a atração sexual foi a razão para iniciarem a amizade

Assim também foi com Sérgio e Natália. Ele queria, mas ela, que já havia perdido um amigo por ter misturado as coisas. Até hoje, Natália diz que não arriscaria ficar com ele, para não correr o risco de arruinar uma amizade que ela valoriza tanto. "A gente brinca que, se um dia a gente vier a ficar, tem que ser para casar." 

Já os universitários americanos não têm essa frescura. Segundo uma pesquisa que ouviu 315 estudantes, metade das suas amizades com o sexo oposto envolve sexo. Dos que transaram com oamigo ou a amiga, 55% afirmaram que o álcool foi decisivo e 60% nunca o/a tiveram como parceiro exclusivo. E, contrariando os resultados da pesquisa citada na outra página, dois terços disseram que o sexo aprofundou a amizade

Um primeiro olhar nesses números pode até levar a concluir que não, a amizade não existe - é sempre um romance fracassado ou dormente. Mas especialistas dizem que é justamente por causa dessa atração que a amizade pode surgir. Na verdade, mesmo quando não há envolvimento se-xual, pode haver atração. "Eu diria que, num número muito grande de situações de amizade entre homem emulher que duram bastante tempo, se você for pesquisar a fundo, vai descobrir que no mínimo um deles gostaria de ter alguma coisa a mais com outro", diz o professor e supervisor da Clínica Psicológica da PUC-SP, Ari Rehfeld. Alguns pesquisadores acreditam que a energia sexual, sem ser levada às vias de fato, pode contribuir para uma maior produtividade, à medida que adiciona energia e interesse ao trabalho. Tudo bem. Agora, vá explicar isso em casa. 


Outras alianças

"Amor, vou sair para tomar uma cerveja com um amigo da faculdade" é uma frase que um marido dificilmente vai gostar de ouvir. Com esposas, não é diferente. Por consumirem a maior parte do tempo livre dos envolvidos, relações estáveis e casamento são considerados obstáculos para a manutenção e surgimento de amizades. Também é comum que pessoas comprometidas achem inapropriado ter umamigo próximo do outro sexo. Assim, uma mulher casada que tenha um grande amigo, ou o contrário, tornou-se uma raridade, como comprova um trabalho de Lillian Rubin, autora de Just Friends: The Role of Friendship in Our Lives ("Apenas Amigos: O Papel da Amizade em Nossa Vida", sem publicação no Brasil). Em entrevistas com mais de 300 pessoas, ela descobriu que apenas 16% das casadas e 22% dos casados tinham amizades do outro sexo. 

Alguns pesquisadores dizem que, embora haja pessoas casadas que têm amigos do sexo oposto, a relação acontece dentro das restrições do casamento ou do trabalho e costuma envolver interações mais superficiais. O pesquisador Greif, por exemplo, é bem realista. Ele tem suas amigas, mas com moderação: "Elas [amizades] normalmente são feitas por meio do trabalho e não de outras atividades. Eu sou casado há 35 anos e não desejo complicar a minha vida". 

Michael Monsour, professor do departamento de comunicação da Univerisidade do Colorado e autor de Women and Men as Friends ("Mulheres e Homens Como Amigos", ainda não publicado no Brasil), acredita que fazer um amigo do outro sexo quando se é casado ou se tem uma relação estável é muito mais difícil do que continuar se relacionando com os antigos amigos. Na prática, essa nova amizade só tem chance de ir para a frente se o outro membro do casal se aproxima da pessoa. Se não, há uma barreira muito grande. 

Sérgio conta que sua relação com Natália não costuma lhe causar dor de cabeça. "Deixo claro para as minhas namoradas a minha relação com ela. No começo, sempre rola um estranhamento, mas se resolve quando elas a conhecem", diz. Ele conta que geralmente elas se tornam amigas. Já com os namorados de Natália, é comum haver uma resistência maior e já rolou ciúme.


Amiga é pra essas coisas

Mas nem só de complicações vive a amizade entre homens e mulheres: ela também tem suas vantagens. Os benefícios vão desde evitar a solidão a conseguir dicas para conquistar alguém. No estudo de Linda Sapadin, as mulheres listaram como algumas das principais vantagens de sua amizadecom homens ter atividades e discussões "interessantes" e uma outra perspectiva do sexo oposto. Já os homens citaram como pontos positivos poder falar sobre praticamente tudo e ser confortado quando se sentem mal ou solitários. Elas são imbatíveis para dar apoio emocional. 

De acordo com Monsour, uma pesquisa mostrou que 73% dos homens e 82% das mulheres recebem suporte emocional de suas amigas, enquanto apenas 27% delas e 56% deles disseram receber o apoio de seus amigos. "Eu penso que homens estão acostumados a ser cuidados por mulheres, suas mães e professoras, e gostam delas como pessoas com quem possam conversar. Mulheres gostam dos homens como amigos porque eles permitem acesso a diferentes atividades e não existe competição", diz Greif. 

O companheirismo entre homens e mulheres solteiros pode muitas vezes assumir contornos de um casamento. "Ela o ajuda a se vestir, a se comportar em determinados lugares ou faz companhia quando ele precisa se apresentar como casal. Ele, por sua vez, conserta o carro dela. Assim, eles vão ocupando papéis que tradicionalmente ou culturalmente são do homem e da mulher, enquanto casal", relata Rehfeld. A ajuda também é muito comum na hora de arrumar um par. Segundo o autor, algumas mulheres relatam que os homens dão conselhos mais objetivos. É o caso de Natália. "É diferente conversar com o Sérgio e com minhas amigas. Ele tem uma visão de homem, mais racional. Mulher é muito sentimental", diz ela. "Acho positivo ter uma amiga, tanto porque ela vai me apresentar para as amigas dela quanto para saber como as mulheres pensam. Acho que vale a pena. Todo cara deveria ter uma amiga", diz Sérgio. 


Mais e mais amigos

Se, mesmo com tantas complicações, muitos homens e mulheres já são amigos, tudo leva a crer que mais amizades surgirão. As razões vão do aumento da presença feminina no mercado de trabalho à valorização dos relacionamentos virtuais - pesquisas indicam que as amizades entre homens e mulheres costumam ser mais frequentes na internet do que fora dela.

Os estudos ainda são insuficientes, mas tudo indica que a amizade entre homens e mullheres vai se tornar não só uma possibilidade mas uma necessidade. Em tempos que exigem que os gêneros trabalhem e convivam, aqueles que conseguem entender e se comunicar com o sexo oposto têm uma vantagem competitiva. 


Amizade é... ...O que não é namoro.

Não confunda os relacionamentos

Muitas vezes, a simpatia à primeira vista tem, no fundo, segundas intenções. Os homens, principalmente, precisam aprender a baixar a bola e aceitar que aquela não vai ser mais uma conquista, mas uma amizade


Amizade é... ...ser confidente e palpiteiro.

É preciso saber ouvir

Conscientemente ou não, homens e mulheres buscam as amizades do outro sexo para terem uma ideia de como é "o outro lado". Com frequência, amigos buscam amigas (e vice-versa) para contar seus atropelos amorosos e tentar chegar a um diagnóstico. Essa troca de experiências, se não for um enredo de comédia romântica em que o confidente se apaixona, acaba sendo vantajosa para ambos.


Amizade é... ...entender maridos e esposas.

Entre os outros e vocês

Então tá combinado, vocês são maduros o suficiente para ser um casal de amigos. O problema é quando já existem outros casais - você e sua namorada e ela e o namorado dela. Se entre dois solteiros aamizade entre sexos já é complicada, entre casados ela é muito mais rara e difícil de lidar. "Ainda precisamos evoluir", diz Lillian Rubin.


Amizade é... ...não criar hierarquias.

Ninguém manda em ninguém

Uma amizade deve ser entre iguais. Mas o que muitos estudiosos observam é que, em uma cultura em que homens sempre foram mais iguais que as mulheres, a dominância masculina e a submissão feminina são bagagens que ainda pesam. Isso, como tudo, vai mudando aos poucos - e serve para relações que vão além da amizade, claro.


Amizade é... ...aturar a desconfiança.

"Nunca rolou nada?"

A dúvida vive atingindo casais de amigos de longa data. A curiosidade é natural: na natureza, a aproximação entre sexos sempre visa a reprodução, e é duro tirar da nossa programação uma lição de milhões de anos. 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Folha de São Paulo mostra situação de precariedade e violência na BR-020 no Ceará


Crateras de até 10 metros precisam ser desviadas pela via oposta da rodovia.



Por: Luciano Augusto

Uma longa reportagem publicada na edição deste domingo (24), do jornal Folha de São Paulo mostra a situação de precariedade encontrada na BR-020 no Ceará, principalmente entre Fortaleza e Canindé. A Polícia Rodoviária Federal considera esse trecho o mais violento do Brasil com 320 acidentes e 18 mortes.
Crateras de até 10 metros precisam ser desviadas pelos motoristas que são obrigados a utilizar a mão oposta da via para fugir dos buracos. São cerca de 40 quilômetros em baixa velocidade, pois o motorista fica com a visão prejudicada pelo barro que toma o lugar do asfalto, revela a Folha.


Miss Brasil diz que foto nua na internet não vai ameaçar título



‘Já está tudo resolvido’, diz Priscila Machado sobre imagem não autorizada.
Segundo ela, a organização do evento tem conhecimento do episódio.

Do G1, em São Paulo
Priscila Machado, após ser anunciada como Miss Brasil 2011 (Foto: Daigo Oliva/G1)Priscila Machado, após ser anunciada como Miss Brasil 2011 (Foto: Daigo Oliva/G1)
A modelo Priscila Machado, eleita Miss Brasil 2011 neste sábado (23), diz estar “tudo resolvido” ao falar sobre a foto que circula na internet em que aparece nua, o que é contra o regulamento do concurso. A miss gaúcha afirma que a foto foi tirada há mais de um ano, durante um ensaio fotográfico sem caráter sensual, pois tampava o seio. Segundo ela, a imagem que circula na internet com o corpo à mostra foi tirada enquanto ela arrumava o cabelo. A foto chegou a virar tema de discussão no microblog Twitter.
Ao G1, Priscila afirmou não ter permitido a publicação da imagem e, por isso, acredita que o episódio não colocará em risco sua coroa de miss. Ela destaca ainda que a organização do evento tem conhecimento do episódio, mas que eles entenderam o que aconteceu. “Já foi tudo resolvido. Eu estou tranquila. Trabalho como modelo há 11 anos e entendo de publicação e autorização. Cuido muito da minha imagem, um foto só pode ser considerada publicada se eu autorizar. Neste caso, eu não autorizei”, explica a nova miss Brasil.

Priscila diz que não sabe quem divulgou a foto, mas também não se mostrou interessada em descobrir. “Foi um ato de má fé, mas a pessoa não vai conseguir denegrir a minha imagem. Não sei quem divulgou e, talvez, por medo ela não se identificou”, diz. “Estou muito feliz, focada no Miss Universo e em ser a anfitriã do concurso. Quero mostrar a beleza e a rica cultura do Brasil.” O evento, que vai reunir misses do mundo inteiro, ocorre em 12 de setembro em São Paulo.
Boanerges Gaeta Junior, diretor executivo do concurso, disse que a organização do Miss Brasil vai confiar no que diz a vencedora. "Acredito que ela não corra o risco de perder a coroa."
Segundo Gaeta Junior, o regulamento não permite ensaios nus, e a foto que vazou não caracteriza um ensaio, pois não foi autorizada pela modelo. "A informação que temos é de que o fotógrafo usou de má fé e ela não autorizou a imagem. Todo concurso de beleza é assim. As meninas são alvo de fofocas e críticas. Nunca dei ouvido a bastidores, prefiro apurar. E a princípio, vamos acreditar no que ela diz."
11ª gaúcha a ganhar o concurso
A vitória de Priscila Machado reforçou a tradição do Rio Grande do Sul no concurso. Ela é a 11ª miss gaúcha a vencer o Miss Brasil. O Rio Grande Sul lidera o ranking dos estados vencedores com 11 vitórias, seguido por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, cada um com oito misses Brasil.
Além da coroa entregue pela miss 2010 Débora Lyra, Priscila Machado ganhou como prêmios uma viagem para Lisboa e R$ 200 mil em contratos de trabalho. A atual Miss Brasil trabalha como modelo há 11 anos, mora em Farroupilha (RS), e cursa jornalismo. Após vencer o concurso, ela disse que não se considera a mulher mais bela do país, mas sim, a mais preparada para representar o Brasil no Miss Universo. "A beleza é relativa, e é muito fácil ser bonita", afirma.

Mansões são construídas em terrenos para assentamento



Terrenos são vendidos irregularmente na Bahia e em Mato Grosso.
Incra diz que está tentando retomar as terras na Justiça.

Do G1, com informações do Fantástico
Em Cumuruxatiba, no sul da Bahia, a água doce e o mar salgado quase se encontram. São quilômetros de praia deserta e coqueiros. Porém, para quem prefere férias no campo, existem boas opções: sítios com piscina e ampla área de lazer em Mato Grosso. O que essas terras têm em comum, além de serem ótimos lugares para curtir a vida? Tudo foi construído em áreas destinadas pelo governo a famílias pobres. São terrenos para assentamentos, pagos com dinheiro público.
Cumuruxatiba é um distrito do município de Prado, que fica a 800 quilômetros de Salvador, onde o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) criou um assentamento há mais de 20 anos.
O primeiro lugar que o repórter  do Fantástico visitou foi um lote, onde vive o fotógrafo inglês Jamie Granger. Ele é filho de um velho astro de Hollywood, Stewart Granger.
A casa fica a poucos passos do mar. Jamie sabe que está em terras destinadas ao assentamento de famílias pobres. “Esse assentamento foi feito 25 anos atrás. Se você fizer uma verificação, a grande maioria das pessoas que foi assentada já vendeu. O Brasil precisa de lugares como esse para pessoas que trabalham duro o ano inteiro, em São Paulo, no Rio, para vir aqui jogar um golfe”, diz.
Para receber um lote em um assentamento, é preciso cumprir vários requisitos previstos em lei, entre eles ganhar até três salários mínimos. Estrangeiros não podem ser beneficiados pelo Incra. No entanto, o fotógrafo inglês disse que comprou de um advogado brasileiro.
“Ele falou que essa é uma área rural que era do Incra, mas que isso não existe mais”, conta Jamie.
A venda de lotes do Incra é proibida. Mesmo assim, em apenas três dias na cidade, a equipe de reportagem do Fantástico descobriu vários à venda.
Seu Olavo estava disposto a negociar. "21 hectares. Eu estava pedindo, há um tempo, 350 conto [350 mil]. Estava quase vendido, não vendeu." Ele revela que, para fechar negócio, é preciso dar dinheiro para o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Prado. “Eu mesmo, pelo menos eu vendendo, eu não deixo de dar ao sindicato alguma coisa, não.”
A equipe encontrou José Augusto, presidente do sindicato. Ele confirma que o lote de seu Olavo é mesmo do Incra. “Aqui tem um grande problema. Essas terras são da reforma”, admite.
Questionado sobre possíveis gastos, José Augusto responde "depois, se você puder, não é para mim. É uma ajuda para o sindicato".
Sobre a falta de fiscalização, ele diz que conta com a lerdeza dos órgãos oficiais. “Para o Incra tirar alguém de uma terra, leva tempo”, revela.
A equipe do Fantástico tentou localizar alguém no sítio, que segundo documento do Incra, é posse da ex-modelo internacional Marina Schiano.
O cadeado que tranca o portão de outro sítio é para garantir que ninguém vai mexer em nada que pertence ao empresário Carlos Alberto Pereira dos Santos, conhecido como Carlinhos de Vitória. O empresário tem até acesso a praia particular.
“Ele só vem aí nos feriados dele. Ele não fica aí, não. Quem fica aí é o caseiro dele”, diz um morador.
O Fantástico tentou localizar Carlos Alberto por telefone, mas ele não respondeu aos recados. Questionado sobre quem era o dono de outra propriedade, o morador respondeu que era Lucas Lessa e que ele não ficava na região. "Vem, fica aqui um pouco, aí volta para Porto Seguro." Lucas Lessa é advogado e também não foi encontrado.
Roberval Costa Gomes é um antigo funcionário do Incra, há 18 anos no instituto: “Aqui que chega o empresário, cheio de dinheiro, em uma região toda loteada pelo Incra, com muito dinheiro, R$ 100 mil, R$ 500 mil, R$ 1 milhão, compra o pobre assentado e o desloca para periferia do projeto. Toda essa região está sendo objeto da cobiça e da compra com a conivência estranha do Incra. Porque o Incra sabe disso, sabe que esse pessoal não tem perfil de reforma agrária, e está permitindo porque está havendo alguém levando vantagem com isso”, afirma.
“Nós temos grandes empresários aí dentro com lotes, até formação de fazenda, 12 lotes contínuos. Tudo com nome de testas de ferro, irmãos, todos eles cadastrados”, explica Ézio Nonato, da Associação Comunitária.
A trabalhadora rural Teresa Camilo dos Santos aguarda por um lote há muito tempo. “O Incra me cadastrou. Eu estou há 22 anos aqui”, conta.

Arnoud de Freitas é um dos poucos assentados dentro da lei encontrados na região. “Planto amendoim, milho, melancia, mandioca, laranja, coco, 12 vacas de leite. Sobrevivo disso aqui. Ainda vivo feliz de estar nesse pedacinho de terra”, diz.
O que diz o IncraDe acordo com o Incra, foram feitas vistorias nos lotes de Cumuruxatiba em função das denúncias.“Nós vamos à última instância, que é a ação judicial de retomada dessas terras, como é caso da Bahia, que estamos com mais de 30 lotes de reintegração de posse desses lotes ocupados irregularmente e imoralmente”, afirma Celso Lisboa de Lacerda, presidente do Incra.
O município de Sorriso é um dos mais ricos de Mato Grosso. Fica a 180 quilômetros de Cuiabá e tem o melhor índice de desenvolvimento humano do estado. A cidade cresce e, junto com a riqueza, se multiplicam os sítios destinados ao lazer.
Seria tudo muito bom e estaria tudo muito bem se não fossem terras de assentamento. E, assim como acontece na Bahia, na região há muita gente interessada em vender os lotes.
A certeza da impunidade é tão grande que gera situações peculiares como uma placa de “vende-se” em um terreno. O lote com a placa está no nome de Bernardete Bem Manchio. Ela tem uma boa casa na cidade e quer ganhar dinheiro com a terra, que não pode ser vendida.
A equipe encontrou outro assentado interessado em passar o lote adiante. Ele pede R$ 140 mil pela área e diz que está barato. “Eu quero 10 conto o hectare. Sabe por que eu quero vender? Porque eu quero aproveitar. Sou aposentado, sou viúvo e quero mexer com outras coisas”, diz.
Sena revela que tem esquema com alguém dentro do Incra para acobertar a venda. Um homem com apelido de Brito. Brito é Lionor da Silva Santos, subchefe do Incra regional. Não foi possível encontrá-lo pessoalmente, mas, por telefone, quando o repórter disse que queria comprar o lote do Sena, Brito respondeu: “Eu vou informar aqui no escritório. Por telefone não vou informar nada, não”.
“Chegar nele e falar: ‘Brito, vou vender meu lote’. E passa para o nome dessa pessoa aí. Dá uns troquinhos para ele e acabou. Eu dei para um quando eu comprei, tem um chorinho de R$ 2 mil”, confessa Sena.
Sena sabe que está fazendo a coisa errada. “Não pode vender. Quem pega terra do Incra não pode vender. Vendem porque são teimosos. Aqui já venderam 50 lotes”, diz.
No dia seguinte, Sena revela que já é a segunda vez que faz este tipo de venda. “Esse é o segundo lote que eu tenho. Eu tinha no Ipiranga. Vendi. Não tive problema nenhum. Só que eu peguei aqui no nome da minha filha porque eu não podia pegar mais. No Incra, você pega uma vez, se você vendeu, você não pega mais.”
Gabriel é filho do dono de uma madeireira. O nome dele está na placa de um lote de um assentamento. Ele fala sobre a compra da área e menciona Brito. “Até falei com ele: ‘Brito, o que nós temos que fazer mais?’ Ele falou: ‘Os documentos estão aqui, tem que só esperar os rapazes irem aí’. Fui direto lá. Aqui tem a declaração de desistência do seu Darci”.
O documento que ele entrega é uma carta de desistência. Nele, o assentado diz que não tem mais condições de trabalhar na terra. A área deveria ser destinada a outro agricultor que precisasse trabalhar. Mas acaba indo para o comprador.
José Carlos Suzin, o Carlão, é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Ele conta que o segredo para enganar o Incra é colocar um laranja morando na terra para passar pela vistoria. “Se seu funcionário tem perfil agrícola, não tem bens ou não tem terra no nome... o que pode inviabilizar são esses fatores”, lembra.
“O Incra tem mania de botar família de pobre em cima de terra, pobre em cima de terra não produz nada”, argumenta o presidente do sindicato para justificar o comércio ilegal de lotes.
Por denunciar as falcatruas na região, Dinéia Costa sofreu ameaças e teve a casa incendiada. Perdeu tudo, menos a vontade de falar. “A intenção é que eu desista do assentamento porque eu sou calo no pé de muitos aqui. Não participo da venda do lote, sou contra a venda do lote e a favor do Incra retomar o lote de quem vendeu e dar para quem está na lista de espera”, diz ela.
A família Miller está na lista de espera. Onde moram, a luz não chegou e as crianças só estudam enquanto dura a vela. Os lotes usados como sítio de lazer são uma afronta para quem espera.
“Quem tem, tem tudo e a gente não tem nada. O que pode, pode tudo, tem que ficar assim, sem água gelada, sem energia, pegar água dos vizinhos. Tem muitos que só têm sítio para ter área de lazer, piscina. E não tem um pé de mandioca plantada, só para festejar mesmo”, afirma Gelci MIller, trabalhadora rural.
“Me sinto triste, que tem casa com piscina, carro, fazendeiro. Eu vejo que minha mãe quer, luta e não pode. Rádio, música, televisão. Não tem luz, até computador não pode mexer, não tem luz.
Tem que fazer tarefa de manhã cedo. O que mais quero é que minha mãe ganhasse isso daqui. É ruim morar sabendo que pode ser despejado a qualquer hora”, lamenta Patricia Miller.
A vergonha que a menina sente quando correm as lágrimas falta a quem explora o que não é seu. Em um telefonema, um dos posseiros, chamado de Neto Baião, pede R$ 500 mil por um lote.
Na terra que ele quer vender, só vive o caseiro Silas, um homem simples que sabe das coisas.
“Brasil é o país de todos, rapaz. Brasil é o país de todos. Brasil, quem tem esse tem tudo na mão. Agora o cara que anda arrastando a barriga no chão, com a mão calejada, não tem vez, rapaz”.